quarta-feira, 23 de maio de 2012

Gaudio

O meu poema é mais triste e frio do que eu sou.
O meu poema é menos cínico e mais verdadeiro.
O meu poema não mente, nem quando conta em seus versos algo inexistente.
O meu poema não quer ser, o meu poema é!

Elandia Duarte

domingo, 13 de maio de 2012

Fenda

Ele me olhava como se eu estivesse nua.
E a verdade é que diante dele, de uma forma ou de várias, eu sempre eu estava.
Pensei nisso e ruborizei ali mesmo, na sua frente.
Depois, sozinha no meu quarto, sonhei poemas de amor...
Tive uma noite bastante produtiva. 
Poeticamente falando, lógico!

Elandia Duarte

sábado, 28 de abril de 2012

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)


A Carlos Heitor Cony
Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade. 
agora vale a vida, 
e de mãos dadas, 
marcharemos todos pela vida verdadeira. 

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana, 
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante, 
haverá girassóis em todas as janelas, 
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra; 
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV 
Fica decretado que o homem 
não precisará nunca mais 
duvidar do homem. 
Que o homem confiará no homem 
como a palmeira confia no vento, 
como o vento confia no ar, 
como o ar confia no campo azul do céu. 

Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem 
como um menino confia em outro menino. 

Artigo V 
Fica decretado que os homens 
estão livres do jugo da mentira. 
Nunca mais será preciso usar 
a couraça do silêncio 
nem a armadura de palavras. 
O homem se sentará à mesa 
com seu olhar limpo 
porque a verdade passará a ser servida 
antes da sobremesa. 

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos, 
a prática sonhada pelo profeta Isaías, 
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

Artigo VII 
Por decreto irrevogável fica estabelecido 
o reinado permanente da justiça e da claridade, 
e a alegria será uma bandeira generosa 
para sempre desfraldada na alma do povo. 

Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor 
sempre foi e será sempre 
não poder dar-se amor a quem se ama 
e saber que é a água 
que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia 
tenha no homem o sinal de seu suor. 
Mas que sobretudo tenha 
sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa, 
qualquer hora da vida, 
uso do traje branco. 

Artigo XI 
Fica decretado, por definição, 
que o homem é um animal que ama 
e que por isso é belo, 
muito mais belo que a estrela da manhã. 

Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado 
nem proibido, 
tudo será permitido, 
inclusive brincar com os rinocerontes 
e caminhar pelas tardes 
com uma imensa begônia na lapela. 

Parágrafo único: 
Só uma coisa fica proibida: 
amar sem amor. 

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro 
não poderá nunca mais comprar 
o sol das manhãs vindouras. 
Expulso do grande baú do medo, 
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 
para defender o direito de cantar 
e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
a qual será suprimida dos dicionários 
e do pântano enganoso das bocas. 
A partir deste instante 
a liberdade será algo vivo e transparente 
como um fogo ou um rio, 
e a sua morada será sempre 
o coração do homem. 


Thiago de Mello, Santiago do Chile, abril de 1964.


Para ouvir na integra: http://www.youtube.com/watch?v=XylbBRdiRdI

quinta-feira, 26 de abril de 2012



André Gonçalves, em: "Coisas de amor largadas na noite"

quarta-feira, 25 de abril de 2012





André Gonçalves, em: "Coisas de amor largadas na noite"

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Delírio

Para  Edson Xavier


Meu verso reverso

igual
contraditório
canalha
atroz
incompreendido
insano

Meu verso esmagador

me salva
me condena
me aniquila
me assassina

Meu verso acalanto

protetor
protegido
alentador
delicado

Meu verso inimigo.


Elandia Duarte

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Auto- retrato - Vincent Van Gogh/1889



...Nessa altura da carta, Vincent pediu desculpas por suas digressões e pela disparidade de idéias que pareciam lhe ocorrer de forma desordenada. Todavia, embora não conseguisse escrever duas linhas coerentes, queria que Wil conhecesse seus pensamentos: "Não sei dizer ao certo o que se passa comigo; de vez em quando tenho acessos horríveis de ansiedade, aparentemente sem causa, ou então uma sensação de vazio e fadiga na cabeça. Vejo tudo isso como um simples acidente. Não há dúvida de que boa parte do problema é minha culpa, e ás vezes sinto uma tristeza e um remorso atrozes; mas, quando tudo isso me desencoraja e aborrece, não tenho vergonha de dizer a mim mesmo que os remorsos e todas as outras coisas erradas talvez sejam causados também por micróbios, como o amor" ( 30 de Abril de 1889)

Derek Fell, em: " As mulheres de Van Gogh: Seus amores e sua loucura"

2.4

Um besouro se agita no sangue do poente.
Estou irresponsável de meu rumo.
Me parece que a hora está mais cega.
Um fim de mar colore os horizontes .
Cheiroso som de asas vem do sul.
Eis varado de abril um martim-pescador!
(Sou pessoa aprovada para nadas?)
Quero apalpar meu ego até gozar em mim.
Ó açucenas arregaçadas.
Estou só e socó.

Manoel de Barros, em: "O livro das ignorãças"

XVII

Penso que tu mesmo cresces
Quando te penso. E digo sem cerimônias
Que vives porque te penso.
Se acaso não te pensasse
Que fogo se avivaria não havendo lenha?
E se não houvesse boca
Por que o trigo cresceria?
Penso que o coração
Tem alimento na Idéia.
Teu alimento é uma serva
Que bem te serve à mão cheia.
Se tu dormes ela escreve
Acordes que te nomeiam.
Abre teus olhos, meu Deus,
Come de mim a tua fome.
Abre a tua boca. E grita este nome meu.

HIlda Hilst, em " Poemas malditos, gozosos e devotos"

O amor nos tempos do cólera (trecho)

Caminhavam juntos, com seus passos contados, se amando sem pressa como noivos  velhos...

Gabriel García Márquez

lugar e identidade (trecho)

Erros! Ah sim, eu entendo de erros. Um arco-íris em tons cinzentos. Um rouxinol mudo. Uma ovelha carnívora. Um fadista feliz.

José Eduardo Agualusa, em "As mulheres de meu pai"

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A criatura (trecho)

Não tenho mais tempo algum,
ser feliz me consome.

Adélia Prado, em"O Pelicano"

terça-feira, 3 de abril de 2012

À guisa de epílogo - Balanço da filosofia da práxis (trecho)

Tal é o balanço da filosofia da práxis. do qual deve formar parte o reexame constante dela para que o marxismo continue sendo crítica, projeto de emancipação, conhecimento e vinculação  com a prática.
E isso tudo em oposição ao otimismo histórico dos que consideram inevitável o socialismo como ao pessimismo- em tempos certamente sombrios - dos que consideram inevitável a sobrevivência, ou a "eternidade", do capitalismo.
Em ambos os casos, cai-se em um fatalismo histórico, que a filosofia da práxis rejeita ao afirmar, seguindo Marx, que a história é feita pelos homens, embora em condições determinadas.
O que significa, por sua vez, que a história não é transcendente ou exterior a eles, a sua consciência , a sua vontade e ação: em suma, a sua práxis. E, portanto, que ainda não esteja escrito o capitulo final do capitalismo, como tampouco está o novo capitulo da história que deve abrir com o verdadeiro socialismo, isso não significa de modo algum que esse novo capitulo - o do socialismo - não possa ser escrito se, dadas as condições necessárias, os homens se decidirem a escrevê-lo com sua práxis


Adolfo Sánchez Vásquez, em : "Filosofia da práxis" 

domingo, 1 de abril de 2012

A terceira via

Jonathan me traiu com uma mulher
que não sofreu por ele
um terço do que eu sofri,
uma mulher turista espairecendo na Europa.
Jonathan é bastante tolo.
Estou sem saber se me mudo
para alguém mais ladino,
se espero Jonathan crescer.
Sem descasar-me, sem gastar um tostão,
o moço oferece-me pensamentos diários
com irresistível margem de perigos:
posso ficar tísica,
posso engordar
posso entender de física,
posso jejuar
produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz: ‘Deus é um tijolo,
está aqui no nariz do meu cachorro.
eu sou puro pecado’.
E imediatamente come docinho de aletria
com descansada certeza:
‘Irei salvar-me porque Deus me ama’.
Não tenho o peito de Ismália
para chegar perto de Deus.
Por isso fico ganindo
e chego perto dos homens,
cheiro a camisa de Pedro,
o travo ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou
quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha.
Da geração da cachaça,
do é ou não é,
do ou casa ou vai pro convento,
não posso ser gay e dizer: depende, vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega
ou na santidade mais rigorosa.
Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas,
porque os santos levitam.
Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico,
minha unha é como meu sexo,
meu pé te deseja, meu nariz,
meu espírito – que é o alento de Deus em mim – te deseja
pra fazer não sei o quê com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, extático
- Francisco e o Serafim, abrasados -,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...


Adélia Prado, em "O pelicano"

Liberdade

...Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome
.    


http://www.youtube.com/watch?v=4HKbX8Dzf2Y

sábado, 31 de março de 2012

Maresia

"Eu amava e desamava
Sem peso e com poesia..."


segunda-feira, 26 de março de 2012

Práxis criadora e Práxis reiterativa (trecho)

‎A criação artística é, também, um processo incerto e imprevisível. Quando o artista começa propriamente sua atividade prática, parte de um projeto inicial que deseja realizar; mas esse modelo interior só se determina e se torna preciso no próprio curso de sua realização. Da mesma maneira, o resultado se lhe apresenta incerto e imprevisível. Só ao final do processo desaparece essa imprecisão e incerteza. Mas, quão longe se encontra, então, o produto do projeto inicial? Por isso, a atividade do artista tem algo de aventura; trata-se de realizar uma possibilidade que só depois de realizada poderá por nós ser compreendida como uma possibilidade realizável. A obra de arte não existe como possibilidade à margem de sua realização; daí a aventura, o risco, a incerteza que atormenta o artista. Só conhecemos a possibilidade estética que Picasso realiza em Guernica como produto de sua atividade prática, isto é, já realizada. Por isso, no terreno da arte, ninguém pode determinar a priori o que se pode fazer no futuro, pois isso seria o mesmo que criar de acordo com uma lei ou regra exterior à própria criação, o que - como já mostramos - é incompatível com uma verdadeira práxis criadora.

Adolfo Sánchez Vásquez, em: Filosofia da Práxis" 

O muro 6

Um muro é o que separa
dois corpos espaciais.

Entre dois corpos
há muitas divisas,
também muitas pontes.

É entre as margens
que se criam os laços.

Todo muro é incompleto
e penetrável.


Raíça Bonfim, aqui: 
http://raibomfim.blogspot.com.br/

O lenhador



Sinopse:

Após doze anos na prisão Walter (Bacon) chega a uma pequena cidade, em liberdade condicional, e muda-se para um apartamento em frente a uma escola primária. Consegue um emprego em uma serraria e leva sua vida de forma isolada e quieta. Ex-condenado por pedofilia, Walter é evitado  por sua família, excluído pela maior parte de seus colegas na serraria, e vigiado por um oficial de polícia, Detetive Lucas (Mos Def). Seus únicos aliados são seu cunhado, Carlos (Benjamin Bratt) e Vickie (Kyra Sedgwick), mulher independente e forte, que capta toda dor e vulnerabilidade exposta por Walter através de seu silêncio e solidão. O relacionamento que surge entre eles, de um desespero exposto e cru, emociona a plateia profundamente. Walter, atormentado por sua consciência, parece determinado a sufocar seus impulsos sexuais predatórios. Porém, ao conhecer uma menina em um parque do bairro, Walter inicia uma batalha terrível contra seus demônios internos. O mais inquietante nesta batalha é não se saber quem vencerá: seus instintos mais nobres ou seus demônios latentes.


*Extremamente tocante e comovente.

domingo, 25 de março de 2012

OS camponeses comendo batatas/ Vincent Van Gogh - 1885



"...Durante esse período, Vincent terminou o que considerava o seu melhor quadro, os comedores de batata, que mostra uma família de camponeses, os DE Groots, ao jantar. As batatas eram, aos olhos de Vincent, o símbolo de seu amor pela terra e de sua ligação com o solo. Disse a Theo: "Tentei transmitir o fato de que aquela gente comendo batatas à luz da lâmpada, havia cavado o solo com as mesmas mãos que agora estendiam para o prato. O quadro fala pois, de trabalho manual e do modo honesto como a família ganhou seu alimento".

Derek Fell, em: "As mulheres de Van Gogh"